Naturalmente que, na minha opinião, a situação política actual deve ser resolvida por eleições antecipadas. E não temos dúvidas de que estas eleições, a serem realizadas, darão uma vitória clara e inequívoca a toda a Esquerda Portuguesa. A Direita (PSD + PP) não conseguirão mais do que cerca de 30% dos votos.
A questão política que se nos coloca neste momento, contudo, é muito mais complexa do que ir para a frontaria do Palácio de Belém exigir essas eleições em nome de que não queremos Santana Lopes para primeiro-ministro. Que não queremos Santana Lopes (ou qualquer outro ou outra do PSD!) já o sabe muito bem o Presidente da República, e já o sabe o país.
E a questão base fundamental que ora ocorre é que, na prática e pela lei constitucional, quem decide da continuação em governo da coligação PSD-PP é o Presidente da República e o PSD.
Ocorre também que neste momento dentro do PSD se trava uma luta de "morte" entre várias tendências chefiadas por determinadas figuras políticas "ancestrais" desse partido, estando praticamente esse partido dividido em três. Duas tendências desse partido representam o que se pode chamar de políticos tradicionais. A tendência de Santana Lopes é o que se pode chamar de tendência anti-política tradicional. Esta tendência não tem o apoio dos barões do PSD mas tem muito apoio entre os militantes de base do PSD. E isto poderá fazer toda a diferença.
Se se calarem os barões discordantes e anti-Santana, vergados pelas vozes de base do partido, Santana triunfará em toda a linha. Pois é sabido que o Presidente da República não deseja eleições antecipadas e, se vir um PSD pacificado e apoiando Santana Lopes, engolirá o "sapo" de o indigitar como primeiro-ministro.
O que foi feito à esquerda: ontem houve uma manifestação em frente ao Palácio de Belém exigindo eleições antecipadas; associada à recusa de ter Santana Lopes como primeiro-ministro. Qual terá sido a reacção de Jorge Sampaio? Qual é o presidente da República que vai fazer isto ou aquilo em função de uma manifestação minoritária? O país levantou-se de norte a sul em manifestações de centenas e centenas de milhares (o mínimo para ter legitimidade e eficácia) de pessoas exigindo eleições antecipadas? Manifestações de rua como aquela que ocorreu somente podem irritar Jorge Sampaio e levá-lo a fazer exactamente o contrário do pedido pelos manifestantes. Porque ele não deixará de mostrar e demonstrar que é ele que tem o poder na mão e não uns milhares de manifestantes (somos um país com cerca de dez milhões de habitantes).
E, no próprio PSD, o que já ocorreu hoje depois da manifestação de ontem? Simplesmente vieram logo a terreiro mais vozes bem importantes do PSD, que ainda se não tinham manifestado, a declarar o seu apoio incondicional a Santana Lopes para primeiro-ministro. Foram as vozes de Filipe Menezes e as vozes de todas as autarquias do PSD (que neste momento tem a maioria das autarquias do país). Cresceu pois, de um dia para o outro, extraordinariamente a base de apoio a Santana Lopes dentro do PSD. Muito agradecido ele estará, de certeza, à esquerda que se foi manifestar contra ele em frente ao Palácio de Belém. Ontem tinha algum apoio, hoje tem dez vezes mais apoio. É isto que eu chamo cegueira política das pessoas de esquerda que estão a fazer manifestações de rua, que, querendo combater Santana Lopes somente estão a reforçar a sua posição dentro do PSD. Quando uma casa é atacada por fora, os seus habitantes ora desavindos passam a unir-se em redor do nome que personifica a causa do ataque.
Isto é estratégia política. É ter visão política. E a política é como um jogo de xadrez. Qualquer acção intempestiva e/ou emocional de um jogador faz inexoravelmente com que ele perca o jogo.
O que a Esquerda deve fazer:
1. Ficar quieta. Porque qualquer manifestação só levará a que todos os militantes de base do PSD passem a apoiar Santana Lopes dentro desse partido e isso fará calar completamente as vozes dos barões anti-Santana, que não quererão ser vistos pelas bases como "anti-PSD".
2. Como consequência do ponto 1., se a Esquerda não surgir "mais alto" do que as divergências "de morte" que existem entre as tendências dentro do PSD, o PSD entrará em autofagia política e isso levará inexoravelmente o Presidente da República a convocar eleições antecipadas.
3. Como consequência do ponto 2., havendo eleições antecipadas, estas serão ganhas pela Esquerda. E a Esquerda sairá retumbantemente vitoriosa desta crise política.
[Quando eu escrevi no meu blog que "devemos apoiar Santana para primeiro-ministro", este "devemos" tem obviamente que ver com as regras do xadrez da luta política: querendo obviamente dizer que "não devemos contestar Santana", para não o "vitimizar" aos olhos dos militantes de base do PSD, porque quem lhe vai tratar da "saúde política" são os seus próprios companheiros barões e líderes do próprio PSD. E, mesmo que por hipótese ele chegue mesmo a formar governo como primeiro-ministro, o caos no PSD continuará e o PSD acabará por se desintegrar, derrubando o próprio governo deles a curto prazo. Ora, se os senhores da guerra do PSD se estão a "matar" uns aos outros, vamos nós, a Esquerda, acudir por alguns?... Neste momento, o PSD são gladiadores na arena romana, e nós somos o público. Será o fim do PSD no poder e a ascensão total da Esquerda ao poder.
Maquiavel também ensinou outras coisas...//..]
Um abraço. Viva a Esquerda Portuguesa! Viva Portugal!
Não me parece.Primeiro porque não foi dada especialmente pelas televisões grande relevância à dita manifestação, porque até houve uma enorme distorção no número de participantes, a RTP 1 referiu cêrca de 4.000 a SIC falou em algumas centenas. Mas a minha discordância de Absinto reside no facto de que mais importante que o favorecimento a PSL da tal manifestação que não vejo como se traduz é a contestação bem presente de destacados militantes do PSD na afirmação de que o sucessor indicado não pode de maneira nenhuma assumir a liderança do partido e muito menos ser o novo 1º. ministro. E como quem dita as escolhas internas num partido não são os elementos externos, pessoalmente não tenho dúvidas nenhumas que Santana Lopes não irá ser o sucessor de Durão Barroso.
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terça-feira, 29 de junho de 2004 @ 05:37
Naturalmente que, na minha opinião, a situação política actual deve ser resolvida por eleições antecipadas. E não temos dúvidas de que estas eleições, a serem realizadas, darão uma vitória clara e inequívoca a toda a Esquerda Portuguesa. A Direita (PSD + PP) não conseguirão mais do que cerca de 30% dos votos.
A questão política que se nos coloca neste momento, contudo, é muito mais complexa do que ir para a frontaria do Palácio de Belém exigir essas eleições em nome de que não queremos Santana Lopes para primeiro-ministro. Que não queremos Santana Lopes (ou qualquer outro ou outra do PSD!) já o sabe muito bem o Presidente da República, e já o sabe o país.
E a questão base fundamental que ora ocorre é que, na prática e pela lei constitucional, quem decide da continuação em governo da coligação PSD-PP é o Presidente da República e o PSD.
Ocorre também que neste momento dentro do PSD se trava uma luta de "morte" entre várias tendências chefiadas por determinadas figuras políticas "ancestrais" desse partido, estando praticamente esse partido dividido em três. Duas tendências desse partido representam o que se pode chamar de políticos tradicionais. A tendência de Santana Lopes é o que se pode chamar de tendência anti-política tradicional. Esta tendência não tem o apoio dos barões do PSD mas tem muito apoio entre os militantes de base do PSD. E isto poderá fazer toda a diferença.
Se se calarem os barões discordantes e anti-Santana, vergados pelas vozes de base do partido, Santana triunfará em toda a linha. Pois é sabido que o Presidente da República não deseja eleições antecipadas e, se vir um PSD pacificado e apoiando Santana Lopes, engolirá o "sapo" de o indigitar como primeiro-ministro.
O que foi feito à esquerda: ontem houve uma manifestação em frente ao Palácio de Belém exigindo eleições antecipadas; associada à recusa de ter Santana Lopes como primeiro-ministro. Qual terá sido a reacção de Jorge Sampaio? Qual é o presidente da República que vai fazer isto ou aquilo em função de uma manifestação minoritária? O país levantou-se de norte a sul em manifestações de centenas e centenas de milhares (o mínimo para ter legitimidade e eficácia) de pessoas exigindo eleições antecipadas? Manifestações de rua como aquela que ocorreu somente podem irritar Jorge Sampaio e levá-lo a fazer exactamente o contrário do pedido pelos manifestantes. Porque ele não deixará de mostrar e demonstrar que é ele que tem o poder na mão e não uns milhares de manifestantes (somos um país com cerca de dez milhões de habitantes).
E, no próprio PSD, o que já ocorreu hoje depois da manifestação de ontem? Simplesmente vieram logo a terreiro mais vozes bem importantes do PSD, que ainda se não tinham manifestado, a declarar o seu apoio incondicional a Santana Lopes para primeiro-ministro. Foram as vozes de Filipe Menezes e as vozes de todas as autarquias do PSD (que neste momento tem a maioria das autarquias do país). Cresceu pois, de um dia para o outro, extraordinariamente a base de apoio a Santana Lopes dentro do PSD. Muito agradecido ele estará, de certeza, à esquerda que se foi manifestar contra ele em frente ao Palácio de Belém. Ontem tinha algum apoio, hoje tem dez vezes mais apoio. É isto que eu chamo cegueira política das pessoas de esquerda que estão a fazer manifestações de rua, que, querendo combater Santana Lopes somente estão a reforçar a sua posição dentro do PSD. Quando uma casa é atacada por fora, os seus habitantes ora desavindos passam a unir-se em redor do nome que personifica a causa do ataque.
Isto é estratégia política. É ter visão política. E a política é como um jogo de xadrez. Qualquer acção intempestiva e/ou emocional de um jogador faz inexoravelmente com que ele perca o jogo.
O que a Esquerda deve fazer:
1. Ficar quieta. Porque qualquer manifestação só levará a que todos os militantes de base do PSD passem a apoiar Santana Lopes dentro desse partido e isso fará calar completamente as vozes dos barões anti-Santana, que não quererão ser vistos pelas bases como "anti-PSD".
2. Como consequência do ponto 1., se a Esquerda não surgir "mais alto" do que as divergências "de morte" que existem entre as tendências dentro do PSD, o PSD entrará em autofagia política e isso levará inexoravelmente o Presidente da República a convocar eleições antecipadas.
3. Como consequência do ponto 2., havendo eleições antecipadas, estas serão ganhas pela Esquerda. E a Esquerda sairá retumbantemente vitoriosa desta crise política.
[Quando eu escrevi no meu blog que "devemos apoiar Santana para primeiro-ministro", este "devemos" tem obviamente que ver com as regras do xadrez da luta política: querendo obviamente dizer que "não devemos contestar Santana", para não o "vitimizar" aos olhos dos militantes de base do PSD, porque quem lhe vai tratar da "saúde política" são os seus próprios companheiros barões e líderes do próprio PSD. E, mesmo que por hipótese ele chegue mesmo a formar governo como primeiro-ministro, o caos no PSD continuará e o PSD acabará por se desintegrar, derrubando o próprio governo deles a curto prazo. Ora, se os senhores da guerra do PSD se estão a "matar" uns aos outros, vamos nós, a Esquerda, acudir por alguns?... Neste momento, o PSD são gladiadores na arena romana, e nós somos o público. Será o fim do PSD no poder e a ascensão total da Esquerda ao poder.
Maquiavel também ensinou outras coisas...//..]
Um abraço. Viva a Esquerda Portuguesa! Viva Portugal!
segunda-feira, 28 de junho de 2004 @ 23:34
Não me parece.Primeiro porque não foi dada especialmente pelas televisões grande relevância à dita manifestação, porque até houve uma enorme distorção no número de participantes, a RTP 1 referiu cêrca de 4.000 a SIC falou em algumas centenas. Mas a minha discordância de Absinto reside no facto de que mais importante que o favorecimento a PSL da tal manifestação que não vejo como se traduz é a contestação bem presente de destacados militantes do PSD na afirmação de que o sucessor indicado não pode de maneira nenhuma assumir a liderança do partido e muito menos ser o novo 1º. ministro. E como quem dita as escolhas internas num partido não são os elementos externos, pessoalmente não tenho dúvidas nenhumas que Santana Lopes não irá ser o sucessor de Durão Barroso.